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DE GENERALISTA A ESPECIALISTA: UM OLHAR SOBRE DIÁRIOS DE APRENDIZAGEM PRODUZIDOS POR ESTUDANTES DO CFS

 

Helena José*, Susana Pinto**; Lurdes Lopes**; José da Silva**; Carlos Gonçalves**

*Doutor, Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico-cirúrgica, Coordenadora do Centro de Formação de Saúde Multiperfil (CFS), Luanda, Angola, Investigadora do CIIS e da European Academy of Nursing Science.

** Mestre, Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico-cirúrgica e professor no Centro de Formação de Saúde Multiperfil (CFS), Luanda, Angola.

 

E-mail: jose.silva@multiperfil.co.ao

 

Palavras-chave: Competências; Enfermeiro; Especialista; Reflexão; Estágio; Narrativas

 

INTRODUÇÃO:

Numa época de acelerado desenvolvimento das sociedades e onde a complexidade é uma prerrogativa, a formação em enfermagem não foge a este cenário. Na realidade o ensino da enfermagem faz-se em cenários cada vez mais complexos, pelo que se impõem métodos e estratégias pedagógicas que consigam fomentar no estudante não só o gosto por aprender mas que também lhe possibilitem desenvolver-se como um profissional crítico, reflexivo, empenhado, motivado para a vida, para a cidadania e capaz de responder eficaz e eficientemente às necessidades das pessoas com quem cuida, na multiplicidade de contextos onde estas se encontram. No caso concreto da Enfermagem Médico-cirúrgica, onde se inserem os cuidados com as pessoas em situação crítica, esta necessidade de responder a situações complexas reveste-se de especial acuidade.

Os cuidados com estas pessoas exigem um conjunto de saberes transversais e específicos que permitem aos enfermeiros responder-lhes criativamente e de modo adequado à sua pessoalidade e diversidade.

O discurso formal, sobre as práticas de cuidados de enfermagem, assenta numa lógica da prática centrada na pessoa indissociada do seu universo contudo a oralidade e a escrita em contexto clínico mostram, não raras vezes, uma acção centrada na tarefa a cumprir e/ou no tratamento da doença. Ora uma enfermagem onde a centralidade na doença seja dominante é desprovida de sentido. É pois necessário colocar “mais Enfermagem” na Enfermagem, centrando-se os enfermeiros naquilo que são “as pequenas coisas” dos cuidados e que são na realidade aquelas que demostram a preocupação do enfermeiro com a pessoa com quem cuida e com o todo que esta experiencia; são estas “pequenas coisas” referidas por Hesbeen (2000, p. 47) que possibilitam à pessoa sentir-se respeitada e que “são um contributo essencial para a saúde das pessoas”.

Quando num processo formativo como a Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem Médico-cirúrgica importa dar resposta aos objectivos estabelecidos para este curso, plasmados no anexo II, alínea a) do Decreto Executivo n.º 01/2015, de 11 de Março, do Ministério da Saúde da República de Angola e que enfatizam o cuidado centrado na pessoa e no contexto que a envolve.

Neste sentido o estágio, assente numa prática reflexiva, constrói-se como um espaço essencial de desenvolvimento de competências autónomas e interdependentes, bem como um espaço de aprofundamento e consolidação de saberes pessoais e profissionais em enfermagem.

Teóricos como Boy e Fales (1983), Street (1992) e Johns e Freshwater (1998) defendem que a prática reflexiva possibilita o confronto com a experiência através da reflexão sendo que os significados e as premissas que a rodeiam podem formar uma base sólida de suporte às escolhas futuras, tendo por referência sistemas de valores e novas formas de pensar, com origem na compreensão da prática de enfermagem.

Neste processo, a reflexão na acção, sobre a acção e para a acção não só facilita a aprendizagem como permite ao estudante olhar para si próprio e para o mundo que o rodeia, percebendo o impacto das suas acções em si e nos outros. Esta reflexão orientada, intencional e planeada, bem como o feed-back fornecido pelo professor, balizam o estudante no seu processo de construção, bem como possibilitam o desenvolvimento de competências e a edificação de um saber que levará à tomada de decisão clínica consciente e emancipada.

 

OBJECTIVO:

Analisar as competências pessoais e profissionais desenvolvidas durante o estágio do Curso de Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem Médico-cirúrgica.

 

MATERIAL E MÉTODOS:

Realizou-se um estudo de caso, de abordagem qualitativa (Guathier, 2003). Os dados foram recolhidos pela análise indutiva de 155 narrativas semanais (diários de aprendizagem), elaboradas durante 20 semanas de estágio, pelos 8 estudantes do primeiro Curso de Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem Médico-Cirúrgica do Centro de Formação de Saúde Multiperfil (CFS). O conteúdo destas narrativas foi analisado de modo interpretativo. As narrativas foram codificadas de 1 a 8 de acordo com o informante. Estas foram examinadas e o seu corpus leu-se e releu-se para apreender o sentido do todo. Nesta análise seleccionaram-se 294 registos narrativos significativos que foram organizados de acordo com as similaridades e relações de sentido. Os objectivos definidos no anexo II, alínea a) do Decreto Executivo n.º 01/2015, de 11 de Março, do Ministério da Saúde da República de Angola serviram para olhar o desenvolvimento das competências de enfermeiro especialista no quadro nacional. Tiveram-se sempre presentes os princípios inerentes à investigação com pessoas, tais como os princípios da não maleficência e da beneficência, o anonimato e a confidencialidade. O consentimento livre e esclarecido para a participação no estudo encontra-se dado, formalizado em suporte de papel e arquivado.

 

RESULTADOS PRINCIPAIS:

Os 294 registos narrativos significativos depois de analisados e interpretados individualmente foram olhados à luz das competências transversais e específicas do enfermeiro especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica tentando compreender o desenvolvimento destes estudantes, durante este processo formativo. Desta análise emergiram sete temas: I) Responsabilidade profissional, ética e legal; II) Melhoria contínua da qualidade; III) Gestão de cuidados; IV) Aprendizagens profissionais; V) Domínio específico; VI) Dificuldades sentidas VII) Sentimentos experienciados. O confronto do discurso dos estudantes com as concepções teóricas actuais em enfermagem e em educação permite perceber que existem competências que deveriam ter sido desenvolvidas antes deste percurso formativo ou seja antes de se iniciar o desenvolvimento das que se encontram enquadradas no Domínio específico das competências de enfermeiro especialista em enfermagem Médico-Cirúrgica. O facto de o não terem sido exigiu aos estudantes e equipa docente um maior esforço e um maior empenho, salientando-se todo um discurso onde é evidenciada a grande mudança ocorrida nestes estudantes. A sua capacidade de reflectir sobre si mesmos e sobre o seu desempenho faz sobressair o “ontem” e o “hoje” traduzido num discurso que muitas vezes inicia por Antes eu não…. DesenvolviHoje já… ou Aprendi … Tendo como referência as competências de enfermeiro especialista plasmadas no plano de estudos do curso e os seus objectivos, definidos pelo MINSA, consegue-se perceber um enorme desenvolvimento destes estudantes no que concerne aos aspectos comunicacionais, ao domínio da técnica e do procedimento, bem como ao nível da responsabilidade e da ética, entre outros.

 

CONCLUSÕES:

O desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo é uma componente essencial dos programas dos Cursos de Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem do Centro de Formação de Saúde Multiperfil. Constatamos que a utilização dos diários de aprendizagem construídos pelos estudantes em estágio se tem revelado como potenciadora de um positivo desenvolvimento de competências profissionais mas, também, do auto-desenvolvimento ajudando a reconhecer os recursos e limites pessoais e profissionais. A análise das narrativas elaboradas pelos estudantes em estágio, revela o desenvolvimento de competências profissionais transversais e específicas tendo o estudante, contudo e não raras vezes, de desenvolver neste momento de formação, também, as competências que seriam expectáveis deter desde a formação inicial, o que ressalta sobretudo quanto narram as dificuldades sentidas e os sentimentos experienciados.

 

RECOMENDAÇÕES:

Recomenda-se que se fomente nos estudantes o pensamento crítico-reflexivo dada a sua indubitável relevância para a construção do conhecimento e da decisão clínica em enfermagem. O desenvolvimento deste modo de pensar pode recorrer-se da realização de diários de aprendizagem (narrativas), planeados e orientados pelo professor, e deve iniciar-se desde o primeiro momento do processo formativo utilizando “situações problema” que o estudante terá que resolver ainda em contexto teórico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Boyd, E. M. & Fales, A. W. (1983). Reflective learning: key to learning from experience. Journal of Humanistic Psychology, 23 (2), 99-117.

Gauthier, B. (2003). Investigação social: da problemática à colheita de dados. Loures: Lusociência.

Hesbeen, W. (2000). Cuidar no hospital: enquadrar os cuidados numa perspectiva de cuidar. Loures: Lusociência.

Johns, C. & Freshwater, D. (1998). Transforming nursing practice trough reflective practice. Malden (USA): Blackwell Science Ltd.

Street, A. F. (1992). Inside nursing: a critical ethnography of clinical nursing. New York: SUNY.